Leitura no Vagão – para se locomover lendo

Imagina que bacana entrar no metrô e, além de encontrar um assento livre, ainda se deparar com um livro sobre o banco, uma doação para você ler, se entreter, se enriquecer culturalmente, transformando um tempo pouco produtivo de locomoção, em uma oportunidade para mergulhar na leitura. Se você tem a sorte de saber do que estou falando, já foi um dos “contemplados” pelo projeto Leitura no Vagãohttp://www.leituranovagao.com, fundado em agosto de 2014, por Fernando Tremonti, em São Paulo.

Em dois anos, o projeto com objetivo de incentivar à leitura, sem fins lucrativos, cresceu muito. Já distribuiu mais de 13 mil livros em metrôs, trens e ônibus em vários locais do país: Distrito Federal, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Minas Gerais, Belo Horizonte, Amapá e São Paulo, além de São Thiago do Chile, Nova York e, pasmem!, Dubai.

A ideia começou despretensiosa, baseada na própria experiência do fundador. “Leio cerca de 2 livros por semana, só aproveitando o tempo que fico no metrô, cerca de 1 hora por dia”, conta Fernando. Juntando a experiência pessoal com a convicção de que a leitura é fundamental para te levar a outro patamar do conhecimento, Fernando criou o Leitura no Vagão. Funciona assim: o projeto deixa livros em locais aleatórios, com uma etiqueta e um panfleto explicando sobre o projeto, para que a pessoa leve a obra para casa, leia e devolva-a no local onde encontro.

Você pode participar doando livros ou sendo voluntários nessa deliciosa missão de distribuir as obras, devidamente etiquetadas, pelos locais previamente definidos. Eles são divulgados nas mídias sociais e no blog do projeto. O próximo evento será no dia 7 de dezembro, no Terminal dos Estudantes, em Mogi das Cruzes. Curta, compartilhe e participe!

Será que teremos um segundo “NÃO” de Bob Dylan?

A 15 dias da cerimônia do Nobel de Literatura, no dia 10 de dezembro, em Estocolmo (Suécia), o cantor, compositor e escritor Bob Dylan ainda não se pronunciou sobre a palestra que deve oferecer à Fundação Nobel pelo recebimento da honraria. Essa é a única condição imposta pela premiação para que o vitorioso leve os R$ 2,9 milhões (900 dólares) destinados a todo o agraciado. Bob Dylan tem até seis meses, após o dia 10 de dezembro, para fazer a sua apresentação. Normalmente, os escritores fazem uma palestra sobre literatura, porém, Dylan poderá optar por um pocket show. Caso ele se recuse, não receberá o prêmio em dinheiro, entretanto, continuará com o título de vencedor do Nobel de Literatura em 2016.

 Sim, os assessores do cantor divulgaram que ele não participará da cerimônia. Resta, agora, saber qual será a posição dele quanto a esse protocolo, o que já causa curiosidade considerando a postura de Dylan. Ele se negou a receber outros prêmios e parece avesso a convenções. Ainda assim, não há dúvidas sobre o merecimento de Dylan quanto à premiação.

Ainda que em um primeiro momento a indicação tenha parecido polêmica, o compositor tem vasta produção literária. Além do lirismo de suas letras, escreveu 29 livros, desde o lançamento do primeiro em 1965. No Brasil, há quatro traduzidos: Tarântula – Poesias Experimentais, Crônicas – Vol. 1, Forever Young e O Homem que Deu Nome a Todos os Bichos.

Conheça projetos que distribuem livros no metrô

 

Você deve ter acompanhado a notícia de que a atriz Emma Watson (a personagem Hermione dos filmes Harry Potter) escondeu, na semana passada, 100 unidades do livro Mom and Me and Mom, de Maya Angelou, em diferentes estações de metrô, em Londres. O objetivo foi intensificar a divulgação, de forma lúdica, da literatura clássica e contemporânea feminista. O que nem todos sabem é que a iniciativa fazia parte de um projeto ainda maior, o Books on the Underground, criado em Londres em 2012.

A intenção de o Books on the Underground é formar novos leitores e incentivar a leitura, deixando livros espalhados pelas estações de metrô da cidade inglesa. Para viabilizar a ação, contam com a parceria de editoras, produtores de filmes e escritores. Deu tão certo que a ideia inspirou outros países a fazerem o mesmo.

Um ano após o lançamento do projeto inglês, surgiu o Books on the Subway, em Nova York. E aí o efeito dominó se deu: em 2014 Books on the L, em Chicago, e também o Books on the Metro, em Washington. No ano seguinte, Books on the Rail, em Sydney, Australia. Por enquanto, aqui nada, mas fica a dica para termos cada vez mais gente lendo.

NOVIDADE: lançamento de e-commerce dos livros no blog. Veja como será!

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A partir de hoje, o blog “Tem Mais Gente Lendo” disponibilizará e-commerce dos livros que indica nos posts. A ferramenta tem dupla função: facilitará a vida dos seguidores e também ajudará o blog a se manter vivo e atualizado, sempre com informações e dicas novas para os seguidores.

O funcionamento do e-commerce é bem simples. Você só precisará clicar no link do post e será direcionado para a página do e-commerce. Lá você encontrará as informações do livro e da compra. Os preços praticados serão os mesmos encontrados em outras livrarias virtuais, com a vantagem de que no nosso blog, você comprará a melhor edição e tradução do livro em questão, selecionada especialmente pelos nossos colaboradores e especialistas na área. Assim, garantimos que terá sempre mais gente lendo, a melhor versão das obras, e continuaremos a incentivar a formação de mais e novos leitores no Brasil.

 

Quer viver mais? Então leia diariamente por 30 minutos

Hábito da leitura pode aumentar longevidade em até dois anos
Hábito da leitura pode aumentar longevidade em até dois anos

Essa é a conclusão de estudo, da Universidade de Yale, nos EUA, que acompanhou 3635 participantes por 12 anos.

A pesquisa foi publicada em setembro desse ano, no jornal Social Science & Medicine, surpreendendo leitores e até mesmo os autores do trabalho. Os epidemiologistas Becca R. Levy, Martin D. Slade e Avni Bavishi, da escola de Saúde Pública, da Universidade de Yale, declararam que não esperavam chegar à conclusão tão relevante. Segundo o estudo, pessoas que leem até meia hora por dia podem viver, em média, dois anos a mais do que aqueles que não têm esse hábito. Os pesquisadores acompanharam a vida de 3635 participantes, com mais de 50 anos, por 12 anos, que se encaixavam em três perfis: leitores assíduos, leitores eventuais e pessoas que não liam livros.

O estudo chegou a indicativos curiosos. Os principais beneficiários são aqueles que preferem livros, e de ficção. Jornais e revistas não são tão eficazes no aumento da longevidade, assim como acompanhar mensagens em e-mails ou postagens em mídias sociais não entram nessa contabilidade. Os pesquisadores explicam que para “reverter” horas de lazer com o livro em vantagens para a saúde é necessário que haja um envolvimento cognitivo intenso capaz de melhorar o raciocínio, a concentração, o pensamento crítico e a inteligência emocional, dentre tantas outras coisas, que parece que só a ficção pode promover.

Outros estudos revelam que a leitura realmente traz aprimoramentos neurais concretos com consequentes melhoras na qualidade de vida, prevenindo inclusive doenças relacionadas à senilidade. Mas os estudiosos concordam que há muito, ainda, a se descobrir entre neurologia, saúde e livros. Enquanto a ciência não comprova em laboratório o que sabemos na prática, continuemos firmes na literatura, certos dos deliciosos benefícios que ela nos traz.

 

Cenas impagáveis e diálogos realistas embalam a leitura de “Um Nazista em Copacabana”

Por Carlos Graieb*

Delúbio é um nome incomum. Segundo o IBGE, há quarenta e sete deles no Brasil. Só um se tornou notório. Assim, se um escritor batiza o personagem de seu livro de Delúbio, está querendo cutucar a onça com vara curta. Esse é sem dúvida o caso de Ubiratan Muarrek com o seu novo romance, Um Nazista em Copacabana. Mas qual onça, exatamente?

Nenhuma das duas em que você deve estar pensando.

Em seu primeiro livro, A Corrida do Membro (2008), Muarrek transpôs para o papel quase sem mediação um jeito intenso de pensar e de falar.

O romance era um tratado sobre a vida sexual da rapaziada. Tudo sem meias palavras, tudo ácido e despudorado, entrecortado apenas por reticências, numa mistura de comédia social muito certeira e voos ocasionais pelo absurdo (como quando uma gata – o bichinho de estimação – abusada sexualmente por seu dono foge do apartamento pela varanda, saltando graciosamente de um andar para o outro, até o chão).

Um Nazista em Copacabana é um livro mais contido na superfície. Muarrek, no entanto, deu um passo adiante como escritor, na construção do enredo e dos personagens.

Na verdade, é difícil encontrar na ficção brasileira atual quem tenha dominado tão bem esses fundamentos da narrativa.

Muarrek estudou a maneira como os dramaturgos e os romancistas realistas constroem cenas pelo diálogo, pela descrição do ambiente e das ações dos personagens.

O livro não se detém para explicar nada, para ser didático. Tudo que o leitor precisa saber está estampado numa sucessão de cenas em geral impagáveis: a mãe espalhafatosa que entra no quarto aos rodopios, repetindo bordões da TV, para acordar a filha; a entrevista de emprego assombrada por um pássaro que entrou voando no escritório e não se sabe onde foi parar; a lésbica seca e amarga que se oferece para massagear as pernas da grávida e aos poucos se excita; o jantar no condomínio caro em que o menino é elogiado por ter absolvido Hitler num julgamento encenado na escola. A verve e a imaginação meio anárquica de Muarrek continuam a toda.

O livro começa com Diana Verônica Funk. Grávida, imensa, ela foi buscar refúgio no apartamento da mãe, no Rio de Janeiro. Sua mãe, que toda tarde se entorpece com cerveja, foi casada com um alemão, Otto Funk. O nome é célebre na história da Alemanha – dê uma espiada na internet. O leitor que descubra se o Otto do livro é mesmo um nazista em Copacabana.

Mas não estraga nenhuma surpresa dizer que o Delúbio de que Diana está fugindo não é o mesmo que aparece no noticiário, enredado no mensalão. Ainda assim, eles têm algo em comum além do nome: o Delúbio do romance também está envolvido em uma grande falcatrua, em São Bernardo do Campo, muito embora seja um tolo que passa dois terços do dia chapado de maconha.

O crítico literário Roberto Schwarz falou certa vez das “ideias fora de lugar” – da maneira como o Brasil importava teorias estrangeiras para dar conta de uma realidade que nada tem a ver com elas. Os personagens de Ubiratan vivem num mundo mais primitivo. Eles são movidos pelos apetites mais básicos: beber, fumar, fazer sexo, ostentar, ganhar dinheiro não importa como. Nem sequer lhes ocorre invocar teorias para justificar o que fazem, ou o que quer que seja. Em sua única tentativa de reflexão Delúbio se perde em uma tese estapafúrdia sobre a índia Pocahontas.

O mais próximo que o livro tem de um centro moral é Diana. Ela atravessa a história em silêncio, recolhida em repúdio e renúncia. Mas mesmo a sua negativa em se envolver com o que vai à sua volta pode ser apenas preguiça – outro pecado capital.

E aqui voltamos à onça.

Um Nazista em Copacabana não foi escrito para tomar partido de petralhas ou coxinhas. Não é panfleto, é romance. E a realidade que o livro descreve não é lisonjeira para ninguém – ricos, pobres ou remediados.  A grande onça brasileira que ele vai cutucar é um bicho pardo, voraz e vulgar. O resultado é um livrão divertido e forte.

*Carlos Graieb é jornalista. Foi editor de O Estado de S. Paulo e Redator-chefe de Veja.