Spoiler: Muarrek entrega o final do romance “Pais e Filhos”, de Turguêniev

Por Ubiratan Muarrek, jornalista, escritor e autor de Corrida do Membro (Editora Objetiva, 2007). Prepara para este ano o lançamento de seu segundo romance pela Rocco.

“– Meu filho, meu querido, filho adorado! Esse apelo incomum produziu efeito em Bazárov… ele virou um pouco a cabeça e, tentando de modo flagrante livrar-se do peso do torpor que o sufocava, falou:

– O que é, meu pai?”

Pais e Filhos, pág. 288

Adiantar o final de Pais e Filhos, obra-prima do escritor tusso Turguêniev, não se resume a dizer que Bazárov, o herói do livro, morre no final. Bazárov, o encantador niilista que o mundo conheceu pelo talento de Turguêniev, de fato morre no penúltimo capítulo do livro. Estudante de medicina em São Petersburgo, ele volta para a casa dos pais, na zona rural e, ao fazer a necropsia de um camponês morto de tifo, corta-se com o bisturi, contamina-se e, diante da “perplexidade indescritível” do pai, Vassíli Ivanovitch, morre três dias depois.

Mas é a descrição dessa “perplexidade indescritível” que torna Pais e Filhos um clássico de primeira grandeza da literatura universal.

O leitor não deve se deixar enganar: por um lado, é verdadeiro que Turguêniev captou como ninguém o momento político da Rússia de 1862, quando Pais e Filhos foi escrito – a libertação dos servos, pelo czar, estava no âmago das transformações de uma economia então agrária e feudal. Bazárov, com suas ideias, saiu das páginas de Turguêniev e ganhou as ruas: seu niilismo – não acreditava em autoridades, misticismos e em “nada que não se pudesse provar” – foi acusado de inspirar jovens de São Petersburgo a tocar fogo na cidade, semeando o terror.

Por outro lado, é na capacidade de narrar com tanta sutileza e força o desespero dos velhinhos camponeses “decrépitos”, nos últimos dias do filho querido, que prometera tanto na vida e, no retorno, teria uma morte tão irônica e banal, que Pais e Filhos se revela em toda sua força: na Rússia que aparece inteira na cena final, no último parágrafo do livro, em que, diante do túmulo de Bazárov, pais e filho se reencontram, em “reconciliação eterna”, diante da “vida infinita”.

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TEMMAISGENTELENDO

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