Fotos do subsolo

Entrevistamos o fotógrafo holandês Reinier Gerritsen, que se viciou em clicar gente devorando livros físicos e digitais nas plataformas, vagões e escadarias do metro de Nova York

(por Hamilton dos Santos)

A arte do fotógrafo holandês Reineir Gerritsen, como nota o também fotógrafo Gus Powell, resulta da espera, do entretempo, do ínterim, daquele exato momento em que as pessoas emanam uma certa serenidade, uma certa concentração.

Seus olhos voyeurísticos extraem o individual do grupo. É um mestre na observação das posturas, das expressões e do vestuário do indivíduo imerso na multidão. Do meio da aglomeração, seus personagens recolhem-se para a sua esfera privada, criando as suas próprias dimensões em pleno espaço público.

Essa descrição vale para toda a vasta produção fotográfica de Gerritsen, mas é ainda mais exata quando se trata de descrever a série intitulada The Last Book (O Último Livro), seu mais recente trabalho.

Trata-se de uma sequência hipnotizante de retratos de gente lendo livros no metrô de Nova York.

Nascido em Amsterdam, em 1959, Gerritsen pertence à categoria dos chamados fotógrafos de rua. Sua técnica e inventividade nada ficam devendo a um Joel Meyerowitz ou a um Bruce Gilden, dois dos mais expressivos representantes desse gênero.

The Last Book é, de longe, o trabalho de maior repercussão global de Gerritsen.

Teve início em 2008. Naquele ano, o fotógrafo estava prestes a lançar um livro e uma exposição intitulados Os Europeus.

“Mas aí veio a crise financeira nos Estados Unidos e foi tudo cancelado”, conta ele nesta entrevista que me concedeu, no final de janeiro, por Skype e e-mail.

Gerritsen então quis ver aquela crise de perto e se plantou nas plataformas da estação do Metro de Wall Street, determinado a flagrar as feições tensas e incrédulas dos brokers e traders do centro nervoso das finanças norte-americanas.

Coisa de fotógrafo de rua. Ainda durante esta empreitada, suas lentes começaram a ser apontadas para usuários lendo livros físicos nas plataformas e nos vagões.

“Virou uma obsessão”, diz o fotógrafo. Ele notou que estava diante de cenas que serão cada vez mais raras no futuro, já que os livros estão agora em formato digital, nos tablets e smartphones. Daí a ideia de dar ao projeto o nome de O Último Livro.

Ao final, o trabalho resultou em um extraordinário registro dos hábitos de leitura de uma sociedade que vai se tornando cada vez menos dependente do papel.

Entretanto, em vez de ser apenas o registro do declínio do livro físico e da ascensão do livro digital, o trabalho é pródigo em nuances e surpresas.

Por exemplo, as fotos revelam uma quantidade exuberante de personagens devotos do livro tradicional, o que aponta mais para um renascimento do que para um declínio.

Expostas na prestigiada Saul Gallery em Nova York – em grandes ampliações e a preços que variam de 5 a 8 mil dólares –, as fotos do projeto The Last Book retratam “grupos de indivíduos absortos no mundo que eles ostentam em suas mãos”, como observa Boris Kachka, no ensaio que abre o livro, lançado concomitantemente com a exposição e um aplicativo.

As fotos do projeto trazem um retrato sociológico dos leitores urbanos do nosso tempo. Trazem também a noção de que a leitura de livros físicos em espaços públicos redunda em uma forma de o indivíduo poder exibi-los como pequenos manifestos do seu gosto.

Quando o livro digital entra em cena, é isso o que se perde: o indivíduo nada pode mostrar sobre o seu gosto. E quem o cerca fica privado de qualquer pista sobre o seu caráter, a sua índole, as suas distinções estéticas e políticas.

TMGL – Como surgiu o projeto The Last Book?

RG – Um projeto puxa o outro. É mais ou menos assim em todas as áreas, não é? Foi assim com The Last Book.

TMGL – Como assim, um projeto puxa o outro?

RG – Por exemplo, em 2005, comecei um projeto que chamei de “Os Europeus”. Viajei por toda a Europa para fotografar anônimos nas ruas, tentando isolar o rosto do indivíduo europeu de sua cultura, do seu ambiente, do seu grupo. Quando estava para publicar em livro e realizar uma exposição com este material, veio a crise financeira de 2008 e tanto o livro quanto a exposição foram canceladas. Então, resolvi que o melhor a fazer era fotografar os responsáveis pelo cancelamento do meu projeto, isto é, as pessoas de Wall Street. Plantei-me na Wall Street Stop (Estação do Metro de Nova York) e comecei a flagrar a tensão e a esperança no rosto daquela gente. Fiquei meio viciado em fotografar no metrô. Certo dia, uma cena capturou minha atenção: uma mulher loira, lábios vermelhos, estava com o rosto quase enfiado nas páginas de Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Sua concentração era enorme e certamente ela lia uma passagem triste. Passei então a flagrar leitores no Metrô, mas agora entrando nos vagões, em vez de ficar apenas nas plataformas, como eu fazia no projeto de Wall Street. Há, eu diria, uma constante, uma linha em comum em todos esses projetos. Meus objetos vêm das ruas. Sou basicamente um fotografo de rua: Os Europeus, Wall Street Stop e O Último Livro são visualmente muito próximos um do outro.

TMGL – O projeto Os Europeus foi realmente cancelado?

RG – Sim. O livro foi cancelado. Foi exatamente por isso, como eu disse, que comecei a fotografar a crise financeira de 2008. Comecei a fotografar primeiro na Europa, mas então fui direto para Nova York, e passei a fotografar muito nas redondezas de Wall Street. O material desse projeto foi exposto no Dutch Photo Museum (NFM) e o livro foi publicado pela editora Hatje Kanz, na Alemanhã.  Em 2011, a SVA gallery, de Nova York, criou um grupo chamado Being American (Ser Americano) e o material da Wall Street Stop também foi exibido lá. Foi minha primeira mostra nos EUA. Mas a minha primeira individual acontece agora com o The Last Book, em cartaz na Julie Saul Gallery, em Nova York, até fevereiro.

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TMGL – Você começou o projeto do The Last Book acreditando que esta cena que mostra uma pessoa com a cara enfiada em um Paul Auster, em uma Bíblia ou em um Phllip Roth está se tornando tão rara que não demora muito e não se repetirá mais. Depois de tantos e tão belos cliques de gente lendo, acredita realmente que o livro físico possa desaparecer em breve?

RG – As pessoas continuarão lendo livros, não há dúvida. Nos anos em que comecei o projeto (2011/2012), era assustador observar o quão rápido os livros físicos estavam sendo suplantados pelos tablets. Vivemos em uma era que a plataforma analógica está sendo trocada por uma plataforma digital. Isso me levou a pensar na ideia do “último livro”. Creio que as minhas fotos deste projeto documentam exatamente este momento de transição, mas, espero, não o último momento do livro físico.

TMGL – Nicholas Negroponte, o arauto do MIT, disse tempos atrás que os livros físicos não passariam de 2015, mas não é isso que vemos atualmente nos metrôs do mundo.

RG – Estamos, repito, em um momento de transição. Tudo caminha para o digital. Mas a mim me parece que o livro tradicional não é apenas um meio impresso. É uma tecnologia que se renova, mesmo na sua forma papel.

TMGL – Como você faz as suas fotos, as pessoas percebem que estão sendo flagradas?

RG – Ao longo do dia, durante as 13 semanas que durou o grosso do projeto, eu andava um bocado, como de resto eu ando sempre. Em um momento ou outro, caminhando assim, acabava encontrando um grupo de personagens interessantes, leitores e livros. Eu costumava trabalhar 5 dias da semana, 10 horas por dia.

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TMGL – Como você lida com os direitos de imagem das pessoas fotografadas? Você pede permissão?

RG – Normalmente, as pessoas nem percebem que estão sendo fotografadas. Quando percebem, eu sempre as agradeço e mostro algo que documente o projeto que estou executando. E tenho toda a paciência do mundo para explicar a elas do que se trata e por que estou fazendo o que estou fazendo. Por se tratar de um documentário e pelo fato de o metrô ser um lugar público, você não é obrigado a pedir permissão. Qualquer um pode fazer fotos no metrô de Nova York ou da Europa, desde que não use flash ou tripé.

TMGL – Você já pensou em fotografar pessoas lendo em outro lugar que não no metrô?

RG – Sim, mas quando você está trabalhando em um projeto, tem que respeitar as restrições. Quando você é um fotógrafo, precisa limitar o espaço em que vai atuar, caso contrário, correrá um grande risco de perder o foco.

TMGL – Que tal se juntar ao Tem Mais Gente Lendo e fotografar no Brasil?

RG – Ótima ideia! Vamos nos encontrar em São Paulo e começar a clicar. E acho que você precisa conhecer também o belíssimo projeto da The Underground New York Public Library (A biblioteca Pública do Metrô de Nova York), que é também é formidável.

TMGL – O mais interessante nesta história toda é que um projeto não inspirou o outro, nasceram coincidentemente, mais ou menos simultaneamente.

RG – Não é incrível?

TMGL – O que vem depois do The Last Book?

RG – O projeto The Last Book não é apenas sobre livros. Também é sobre o que já mencionei antes, isto é, a transição da plataforma analógica para a digital. Foi por isso que decidi fazer um aplicativo junto com meu colega Bas Vroege e a Fundação Paradox. Neste aplicativo, você pode ver pessoas lendo livros digitais, em seus tablets e smartphones. O aplicativo está sendo vendido na i-Tunes Store. Chama-se The Last Book Revisited. Atualmente, estou trabalhando em dois novos projetos, um em Amsterdam e outro em Paris, e nenhum deles é no metrô.

TMGLEmbora algumas delas estejam expostas em belíssimas e gigantescas ampliações em uma galeria em Nova York, suas fotos vem sendo conhecidas e apreciadas no mundo todo em telas digitais. Como o digital está contribuindo para a arte da fotografia?

RG – Prefiro, claro, fotografias impressas porque mostram a verdadeira qualidade da luz que se capturou. Na tela digital, é difícil controlar a qualidade da imagem. Parte deste controle está nas mãos do observador: brilho da tela, textura, contraste etc. Para quem só viu minhas fotos por meio da experiência online, acho que seria fantástico se pudesse vê-las impressas, ao vivo. Elas estão expostas em ampliações de 1 X 2 m e são, a meu ver, absolutamente hipnotizantes.

TMGL – Ao contrário que previu o Nicholas Negroponte, parece que os livros físicos estão longe de seu ocaso. Ao contrário, parece que o livro físico ganha força no meio da floresta digital.

RG – Creio que é isso mesmo o que está acontecendo. Em especial, a cultura de livros de fotografia tem florescido nos últimos anos. Livros que são feitos com amor, atenção e cuidado sempre serão amados pelas pessoas. Um livro é um meio tão bonito para se ler uma história, ouvi-la e então levá-la para casa, e é tão acessível. Estou começando a crer que a Renascença do livro está começando. O designer com quem trabalhei no projeto do livro do The Last Book , Rent Put, disse com muita clareza: “Estamos tão massacrados pela quantidade de informação que vem da internet que nos sentimos aliviados ao lidarmos com livros, nos quais as informações estão limitadas e conformadas a um determinado espaço, entre as capas”. Eu, de minha parte, fiquei muito feliz quando a Fundação Aperture apostou em meu projeto, transformando-o em um belo livro físico. Lesley Martin, o diretor de criação da Aperture, também compreendeu que há uma demanda por livros que são feitos com a amor e cuidado. Estes livros sempre serão muito poderosos.

TMGL – O seu trabalho foi descrito por Gus Powell como um tipo de voyeurismo que extrai o indivíduo do grupo, um trabalho que se esmera em observar posturas, expressões e vestuário do indivíduo imerso na multidão. Seu trabalho quer ser uma voz contra o massacre do grupo sobre o indivíduo?

RG – Como um fotógrafo, eu aprecio e perscruto profundamente cada personagem. Esta é a essência do meu trabalho.

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