Edward Pimenta conta o segredo do livro “A Noite da Arma”, de David Carr

Por Edward Pimenta, jornalista, escritor e autor de O Homem que Não Gostava de Beijos (Editora Record, 2006).

O jornalista americano David Carr, morto no dia 16 de fevereiro, escreveu sobre mídia, jornalismo, televisão, cultura pop, sempre irônico e classudo no The New York Times.

Intimidador no vídeo, gente fina pessoalmente. Conheci-o quando veio a São Paulo, em 2014, e, na ocasião, ele autografou o meu exemplar do seu livro A Noite da Arma (Record) – assista-o em ação entrevistando os fundadores do VICE no documentário Page One.

Durante anos, bebeu quantidades monumentais de álcool e gostava de cocaína. Tornou-se um viciado em crack, injetava coca na jugular, traficou para sustentar o vício, foi preso, perdeu empregos, amigos, casamentos e a guarda das duas filhas gêmeas. Depois de vários rehabs, deu a volta por cima. Carr escreveu a história – aparentemente o clichê perfeito da superação – e a publicou em livro nos Estados Unidos, em 2008. Em português, ficou A Noite da Arma, bem traduzido por José Gradel. Um relato pungente, de tirar o fôlego, para usar dois clichês de uma só vez.

A narrativa dos seus piores dias tem jeitão de prosa memorialística. Carr prefere chamar de reportagem. De fato, revirou o passado em busca de documentos que pudessem reconstruir a sua história e falou com as pessoas que, vinte anos antes, tinham feito parte do seu inferno pessoal: amigos, namoradas, traficantes, fornecedores, cafetões, agentes de saúde e internos.

Quase todas as sessenta entrevistas, vídeos, áudios, fotos e fac-símiles você pode ver neste site bacaníssimo: http://www.nightofthegun.com, lançado com a edição americana. São duas, a meu ver, as virtudes de A Noite da Arma. A primeira, claro, é que Carr se esforça para não ficar “bem na fita”. Se você experimentou escrever algumas linhas sobre si mesmo, já deve ter notado como acionamos involuntariamente censores internos que regulam aquilo que deve ou não ser escrito. Na tentativa quase sempre bem-sucedida de fugir da autocomiseração, Carr descreve como ele, um viciado gordo e decadente, batia na mulher durante as brigas alimentadas pelas drogas.

O autor busca explicar o funcionamento da memória quando se pretende escrever uma autobiografia em forma de reportagem. “A memória episódica e a semântica estão em níveis diversos, mas cada qual é eventualmente utilizada com a função de completar uma narrativa. Narrativas são as explicações de nós mesmos que damos aos outros com a dura verdade impiedosa sempre presente nas entrelinhas do que se conta”. Ele diz ter se baseado em algumas suposições:

1) As narrativas de qualquer pessoa têm valor, inclusive a minha.

2) Minha vida é a única coisa do mundo na qual eu sou o maior especialista.

3) Se eu for verídico, nenhum dano real pode abater-se sobre mim.

4) Guardar cuidadosamente os vídeos e áudios das pessoas entrevistadas há de conferir à biografia uma verossimilhança nascida da transparência.

5) Eu sou um homem bom que fez coisas ruins, mas agora sou melhor.

A segunda grande virtude do livro é a clareza que o autor tem sobre os mecanismos do vício. Acho que você também sabe disso, mas não é capaz de dizê-lo com tanta graça:

“Respeite o poder das substâncias químicas que alteram o ânimo, mas permita que haja esperança. Quando o pirata interno em seu subcórtex está pedindo permissão para subir a bordo, considere que, se você conseguir atravessar aquele dia, poderá haver muitos outros. Confie em Deus, não no pirata. Desenvolva novas obsessões. Literatura do século 19. Bonsai. Pingue-pongue. Tortas sem farinha. Saltos radicais. Evite escrever ou ler biografias de viciados. A linha divisória entre lascívia e erro humilhante é fina como uma navalha. Nada a fazer aqui, nada além de gatilhos, continue andando.”

O grande mistério é o episódio que envolve a arma do título do livro. Inicialmente não fica claro se, em uma fatídica noite de excessos e loucura da pesada, ele realmente ameaçou o melhor amigo com um revólver.

Por fim, entre revelações de detalhes humilhantes para um homem com a sua vaidade intelectual, o autor chega à conclusão de que a arma era mesmo dele e que esteve apontada para a cabeça do companheiro. Este não é, óbvio, o meu final preferido na literatura, mas esta passagem determinou o ponto de transformação na vida de um cara que foi ao fundo do poço e se reergueu até se tornar um dos mais interessantes jornalistas de seu tempo, antes de desaparecer prematuramente, aos 58 anos.

Publicado por

TEMMAISGENTELENDO

Festeja, cultua e apoia o gesto da leitura nos espaços públicos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s