Tudo por livros – o relato de quem encarou a fila de cinco horas da Cosac Naify

Apesar de morar há mais de três meses em São Paulo, ainda não aprendi uma regra básica: paulistas adoram filas. E digo que não aprendi porque ainda me assusto com os quilômetros de gente enfileirada em frente a qualquer lugar que você vá, independente do horário e dia da semana. Suponho que um dos critérios para se definir se algo vale a pena está diretamente relacionado ao número de pessoas dispostas a ficar horas em pé esperando. Não tem fila, não é legal.

Ontem, em plena quinta-feira no meio da tarde, acabei entrando na maior e mais inesperada fila da minha vida. Foram exatas cinco horas em pé (ou sentada no chão, escorada na parede, caindo pros lados, agachada, sei lá). E acredite, todos estavam ali por um motivo nobre e até inusitado: livros. A editora Cosac Naify está abrindo as portas até o dia 22 para um bota-fora, devido à mudança de endereço. Fui ao local inocente e descompromissada, movida mais pela curiosidade do que pela certeza da compra, sem jamais imaginar que tanta gente teria a mesma ideia.

Não venha me dizer que brasileiro não lê. Lê sim e, assim como eu, muita gente se dispôs a enfrentar uma fila que começava debaixo de chuva forte, continuava em uma rampa, entrava em um corredor, ziguezagueava em uma salinha esquisita, voltava pro corredor, passava de novo na rampa e finalmente chegava ao destino. No galpão da Cosac Naify, uma selva de ávidos leitores disputavam títulos e capas, saltitando e indo à loucura frente às plaquinhas que indicavam preços entre R$5,00 e R$40,00.

Ainda na entrada, uma senhora me entregou uma sacola enorme vazia. “Toma outra, você vai precisar”, ela disse me passando um segundo saco. Confesso que no momento achei um exagero, mas ao ver as pessoas que já tinham comprado comecei a entender a situação. Depois de encarar mais de duas horas só para entrar, não dava pra sair de lá sem sentir que o tempo perdido foi válido. Tinha gente levando cinco sacolas cheias, caixas, bolsas de feira, mala de viagem. Uma loucura.

Cinco minutos rodando entre as mesas de promoções era o suficiente para encher uma sacola. Confesso que fiquei um pouco decepcionada com a quantidade de títulos literários disponíveis, mas não posso negar que as biografias especiais e os fotolivros estavam realmente atraentes. Tinha gente fazendo coleção de biografia do Woody Allen, do David Bowie, dos Rolling Stones. Consegui apanhar uma antologia maravilhosa dos Beatles abandonada debaixo de uma mesa, por um preço bem acessível. Designers estavam no céu. E ainda ouvi uma moça confessar para a amiga que se segurou para não comprar vários livros infantis de R$5,00 para um filho que ainda não nasceu (e nem vai nascer nos próximos nove meses, de acordo com o tamanho da barriga e a magreza dela).

Depois de conseguir decidir o que levar e o que abandonar, chegava a terceira parte do desafio: a fila do pagamento. Ela começava na rampa, rodeava as mesas de promoções (se misturando com as pessoas que ainda compravam), descia de novo a rampa e rodeava a fila que rodeava as mesas. Como se já não estivesse difícil o suficiente entender a logística da coisa, ainda havia um agravante: o peso dos livros. Em apenas uma hora arrebentei minhas duas sacolas. Depois consegui arrumar uma caixa para jogar a mercadoria, que comecei literalmente a chutar toda vez que a fila andava. Vi várias sacolas abandonadas pelas paredes. Tinha gente quase caída no chão.

Dor nas costas e nos braços à parte, fiquei bem feliz após pagar a conta. Todos os cinco livros reunidos não compravam um único exemplar “The Beatles – Antologia” pelo preço normal. Quanto às filas absurdas, após cinco horas até comecei a ficar com aquele sentimento de tempo perdido – mas pensei melhor e cheguei à conclusão que não se perde tempo com livros.

Por Carol Argamim Gouvêa

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TEMMAISGENTELENDO

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5 thoughts on “Tudo por livros – o relato de quem encarou a fila de cinco horas da Cosac Naify”

  1. realmente seu relato foi bem legal de ser lido! Só não concordo q paulistano (não necessariamente paulistas) goste de filas… a gente não tem outro remédio, e isso é um ótimo treino q temos para a paciência, a noção de respeito… Eu tô com inveja pelas suas compras…

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  2. Carol, as filas que você diz que os paulistas adoram e só uma questão de organização. Imagine se não houvesse a organização das filas, seria uma zona total.

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  3. Não é que paulistano gosta de filas.. as filas são uma forma de organização em uma das maiores cidades do mundo, se você ficou cinco horas com a fila imgaina sem ela…

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