Spoiler: Miguel Sanches, autor de “A Segunda Pátria”, entrega o final do clássico “A Montanha Mágica”

Miguel Sanches Neto é professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Ponta Grossa, colunista da Gazeta do Povo (Curitiba), colaborador regular da revista Carta Capital (São Paulo) e autor de diversos livros, sendo A Segunda Pátria, publicado pela editora Intrínseca, o mais recente. Em uma obra magma da literatura ocidental, A Montanha Mágica (1924), Thomas Mann constrói um modelo reduzido da Europa às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Esta ficção enciclopédica, em que prepondera a defesa intransigente das grandes ideias do período, encarnadas em personagens que não arredam pé de suas posições, tem como fio condutor a história do engenheiro naval alemão Hans Castorp. Ele visita o primo Joachim Ziemssen em um sanatório para tuberculosos em Davos, nos Alpes Suíços. Profissional da cidade dos homens, pertencendo ao mundo prático dos que constroem coisas, Hans resolve ficar um período a mais naquele universo (onde o tempo e a ação foram suspensos) com o intuito de aproveitar o clima e a convivência com figuras marcantes. Ali, fora da rotina de trabalho, ele começa um aprendizado, oscilando permanentemente entre ideologias antípodas. Ironicamente, Hans descobre que está também adoecido e prolonga por sete anos a sua permanência no sanatório, sem optar jamais por uma das correntes filosóficas defendidas por seus companheiros. O romance é a metáfora de um adoecimento geral da sociedade, que resultaria na Grande Guerra, como se dizia então. No final, o narrador impiedoso (que nos carrega ao longo de quase mil páginas) mostra abruptamente Hans Castorp como mais um soldado, ingenuamente conduzido ao campo de batalha, despedindo-se dele: “Adeus – para a vida e para a morte! Tens poucas probabilidades a teu favor”. Neste baile macabro a que foi arrastado, Hans terá que dançar com a morte alheia e, talvez, com a própria. Continua tão singelo quanto no momento de ingresso no sanatório, sugerindo assim que, em um mundo onde cada um defende a sua verdade, não há espaço para uma formação humanista. Resta a Hans e seus iguais apenas a participação passiva no que Thomas Mann chama de “a festa universal da morte”.

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TEMMAISGENTELENDO

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