Cenas impagáveis e diálogos realistas embalam a leitura de “Um Nazista em Copacabana”

Por Carlos Graieb*

Delúbio é um nome incomum. Segundo o IBGE, há quarenta e sete deles no Brasil. Só um se tornou notório. Assim, se um escritor batiza o personagem de seu livro de Delúbio, está querendo cutucar a onça com vara curta. Esse é sem dúvida o caso de Ubiratan Muarrek com o seu novo romance, Um Nazista em Copacabana. Mas qual onça, exatamente?

Nenhuma das duas em que você deve estar pensando.

Em seu primeiro livro, A Corrida do Membro (2008), Muarrek transpôs para o papel quase sem mediação um jeito intenso de pensar e de falar.

O romance era um tratado sobre a vida sexual da rapaziada. Tudo sem meias palavras, tudo ácido e despudorado, entrecortado apenas por reticências, numa mistura de comédia social muito certeira e voos ocasionais pelo absurdo (como quando uma gata – o bichinho de estimação – abusada sexualmente por seu dono foge do apartamento pela varanda, saltando graciosamente de um andar para o outro, até o chão).

Um Nazista em Copacabana é um livro mais contido na superfície. Muarrek, no entanto, deu um passo adiante como escritor, na construção do enredo e dos personagens.

Na verdade, é difícil encontrar na ficção brasileira atual quem tenha dominado tão bem esses fundamentos da narrativa.

Muarrek estudou a maneira como os dramaturgos e os romancistas realistas constroem cenas pelo diálogo, pela descrição do ambiente e das ações dos personagens.

O livro não se detém para explicar nada, para ser didático. Tudo que o leitor precisa saber está estampado numa sucessão de cenas em geral impagáveis: a mãe espalhafatosa que entra no quarto aos rodopios, repetindo bordões da TV, para acordar a filha; a entrevista de emprego assombrada por um pássaro que entrou voando no escritório e não se sabe onde foi parar; a lésbica seca e amarga que se oferece para massagear as pernas da grávida e aos poucos se excita; o jantar no condomínio caro em que o menino é elogiado por ter absolvido Hitler num julgamento encenado na escola. A verve e a imaginação meio anárquica de Muarrek continuam a toda.

O livro começa com Diana Verônica Funk. Grávida, imensa, ela foi buscar refúgio no apartamento da mãe, no Rio de Janeiro. Sua mãe, que toda tarde se entorpece com cerveja, foi casada com um alemão, Otto Funk. O nome é célebre na história da Alemanha – dê uma espiada na internet. O leitor que descubra se o Otto do livro é mesmo um nazista em Copacabana.

Mas não estraga nenhuma surpresa dizer que o Delúbio de que Diana está fugindo não é o mesmo que aparece no noticiário, enredado no mensalão. Ainda assim, eles têm algo em comum além do nome: o Delúbio do romance também está envolvido em uma grande falcatrua, em São Bernardo do Campo, muito embora seja um tolo que passa dois terços do dia chapado de maconha.

O crítico literário Roberto Schwarz falou certa vez das “ideias fora de lugar” – da maneira como o Brasil importava teorias estrangeiras para dar conta de uma realidade que nada tem a ver com elas. Os personagens de Ubiratan vivem num mundo mais primitivo. Eles são movidos pelos apetites mais básicos: beber, fumar, fazer sexo, ostentar, ganhar dinheiro não importa como. Nem sequer lhes ocorre invocar teorias para justificar o que fazem, ou o que quer que seja. Em sua única tentativa de reflexão Delúbio se perde em uma tese estapafúrdia sobre a índia Pocahontas.

O mais próximo que o livro tem de um centro moral é Diana. Ela atravessa a história em silêncio, recolhida em repúdio e renúncia. Mas mesmo a sua negativa em se envolver com o que vai à sua volta pode ser apenas preguiça – outro pecado capital.

E aqui voltamos à onça.

Um Nazista em Copacabana não foi escrito para tomar partido de petralhas ou coxinhas. Não é panfleto, é romance. E a realidade que o livro descreve não é lisonjeira para ninguém – ricos, pobres ou remediados.  A grande onça brasileira que ele vai cutucar é um bicho pardo, voraz e vulgar. O resultado é um livrão divertido e forte.

*Carlos Graieb é jornalista. Foi editor de O Estado de S. Paulo e Redator-chefe de Veja.

 

Publicado por

TEMMAISGENTELENDO

Festeja, cultua e apoia o gesto da leitura nos espaços públicos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s