O voyeur dos vagões – um ensaio sobre fotografar pessoas lendo no metrô

Leitora segura rente ao corpo a brochura "1889", de Laurentino Gomes
Leitora segura rente ao corpo a brochura “1889”, de Laurentino Gomes

Ano passado, troquei o carro pelo transporte público. Era mais fácil chegar ao trabalho indo de metrô. Digo “era” porque não trabalho mais no mesmo lugar. A troca, devo dizer, eu fiz mais pela segurança do que pela economia de tempo. Afinal, hoje em dia, é perfeitamente viável trabalhar enquanto permanecemos encapsulados dentro do carro uma, duas horas nos congestionamentos. Ainda mais se você é um executivo. Basta dar as coordenadas corretas pelo WhatsApp. Tomar as decisões certas – e as erradas também – pelo SMS. E fazer uma boa gestão de pessoas pelo Facebook. Para que todas essas coisas tenham o mínimo de qualidade, é só usar o Google. Ou os Apps de dicionários bilíngues. Tem gente que fixa o tablet no console do carro, perto do porta treco. Eu preferia o smartphone. Dirigia com uma mão e teclava com a outra. Sou mais ágil com um dedo só – o dedão da mão direita. A mim, parece desperdício colocar o gadget na horizontal e teclar com as duas. Meio nerd. O que me fez trocar o carro pelo transporte público foi a minha paranoia. Continuo usando carro vez ou outra. Mas, desde o segundo assalto, qualquer moto que agora se emparelha lado a lado com o meu carro me deixa irascível. Acelero sem ter para onde. Aciono as setas. Às vezes, o pisca alerta. Buzino. Rezo para o sujeito da frente abrir espaço. Rezo apenas. Dou ré. Ligo para o 190. Certa vez, abri a porta e saí correndo pista oposta afora, abandonando o veículo no meio do trânsito. Martirizo-me por não ter acumulado o suficiente para um blindado. Se tiver um blindado, tem que ser novo. Carro blindado velho é uma bomba, dizem. Seja como for, quando fiz a troca, pensei: agora, vou voltar a ler com a mesma voracidade com que lia vinte anos antes. Não é que agora eu seja um velho. Não sou. Mas a energia mental nem de longe é a mesma. A capacidade de concentração, que eu pensava que fosse um atributo dos mais maduros, ficou pelo caminho. Leio uma página aqui, outra ali, e na página seguinte já tiro o queixo de cima do livro e me ponho a pensar no que preciso fazer para bater a esquerda com mais potência. Ou começo a contabilizar o quanto está rendendo uma modesta aplicação que mantenho na Caixa Econômica Federal. Ou simplesmente interrompo a leitura no meio de um parágrafo para pensar em sexo. Ou para corrigir mentalmente o título de um romance que não estou escrevendo – sou proprietário da maior coleção de títulos de romances que um escritor poderia produzir. Mas, depois de cada um desses milhares de títulos, o que se vê é um amontoado infinitesimal de páginas em branco. Lia muito no metrô e nos ônibus quando era estudante. Literatura barata, principalmente. Toda a Agatha Christie. O Caso dos Dez Negrinhos. Expresso do Oriente. Todo o Balzac. Ilusões Perdidas. Alguma literatura esnobe também. Lembro como se fosse hoje das últimas linhas de Ulisses correndo tão ou mais velozes do que o trem rumando para a Estação Paraíso… “…agora sim meu Deus dezesseis anos atrás depois desse beijo longo eu quase perdi minha respiração sim ele disse que eu era uma flor da montanha sim assim a gente é uma flor todo o corpo de uma mulher sim essa foi uma coisa verdadeira que ele disse na vida dele…” Eu chegaria ao fim do romance de James Joyce antes do trem frear e abrir as portas na Estação Ana Rosa? A caneta de James Joyce é rápida, mas embaralha as vistas do leitor, que se põe lento. Perdi. Só consegui terminar três estações à frente. Imaginava que, vinte anos depois, a volta ao transporte coletivo fosse automaticamente me devolver a esses jogos mentais. Naquele época, eu apostava: “se não conseguir ler dez páginas até a Estação Ana Rosa, estando eu na Estação Santa Cecília, é porque vou morrer antes dos 30 anos”. Estimulado por esses joguinhos, acabei lendo a obra completa de Manuel Puig. E quase toda a do Martin Amis, do Paul Auster, da Susan Sontag, do John Updike… A do Dostoiévski? Bem, essa eu já havia lido antes mesmo de saber o que era transporte coletivo, e Ulisses foi mesmo uma extravagância. A melhor literatura para ser consumida no metrô é aquela de texto leve e enredos mais lineares e aristotélicos (histórias com começo, meio e fim). Suspense é bom. O problema é que não há mais clima para esses jogos mentais no metrô. Nos anos 1980 e 1990, era possível fazer a maioria das viagens sentado. Hoje, um ano depois de ter voltado a andar de metrô, se sentei duas vezes foi muito, de modo que ler está fora de cogitação. Para mim. Para os demais usuários atuais, não. Há outros jogos nas mentes que circulam ali. Aqui. [Parte deste ensaio estou escrevendo no aplicativo Notas do iPhone. Este último parágrafo, por exemplo, foi inteirinho escrito na plataforma da Sumaré]. Para ser justo, há muito mais gente lendo hoje em dia no metrô do que havia quinze, vinte anos atrás – isso, claro, deve ser atribuído à proporção: tem mais gente circulando hoje e a malha é maior. A grande maioria lê em pé. Gente lendo espremida. Acossada. Acotovelando-se. Hamilton1 E leem livros até bem maiores que o Ulisses, que, na tradução brasileira do Antonio Houaiss, tem 550 páginas. Cada um dos tomos da série As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, o grande hit entre os usuários do metrô de São Paulo, tem muito mais páginas que o Ulisses. Ao menos 200 páginas a mais. hamilton2 A Bíblia é uma constante. É ainda mais comum nos vagões da CPTM. Livros espíritas? Alguns. Mais Zíbia do que Kardec. Este improvável e insuspeitado ambiente livresco em pleno subsolo ostenta uma beleza. Não por ser edificante. Por ser uma forma de resistência. Ali no metrô, para cada pessoa que ostenta um livro físico ou um livro digital na mão, nove outras pessoas estão jogando Candy Crush. Daí a pertinência de ver a coisa como “uma forma de resistência cultural”. Mas repito, longe de mim compartilhar a ideia de que a cultura livresca é superior à cultura das telas dos smartphones, longe de mim afirmar que pessoas que leem livros são melhores que pessoas que jogam Candy Crush. O fato é que passei a sentir certo prazer em olhar para pessoas lendo livros em meio a pessoas jogando Candy Crush. Comecei então a fazer o que os homens em geral fazem diante da experiência de um prazer: sentem necessidade de compartilhá-lo. Passei a fotografar aquelas pessoas que, no meio da iluminada colisão de balinhas coloridas, seguram uma brochura, molham o dedo na língua e vão virando as páginas enquanto o trem arranca e freia, para e vai, as portas abrem e fecham, abrem, fecham, abrem e voltam a fechar. HURRY UP, PLEASE! IT’S TIME (APRESSE-SE, ESTA É A ÚLTIMA CHAMADA). No geral, essas arrancadas e freadas são suaves. Mesmo assim, é preciso habilidade de surfista para manter-se em pé – ainda mais com um livro aberto nas mãos. Outro dia, pobre de um garoto, o seu A Culpa é das Estrelas, de John Green, caiu e foi impiedosamente pisoteado. O rapaz ficou com aquela cara que o leãozinho Simba faz quando a manada de búfalos passa por cima de seu pai, o Rei Mufasa. Passei a compartilhar nas redes sociais as fotos tiradas com um anacrônico iPhone 4. Fotografar e postar. Postar e fotografar. Virou um vício. Postar e fotografar. Legendar. Descobrir o título do livro quando este não se mostrava explicitamente. Perseguir gente carregando livros fechados nas plataformas até que eles são abertos dentro do trem. Um vício, às vezes, perigoso. Correr atrás de gente que anda, corre e, ao mesmo tempo, lê. Gente que desliza pelas esteiras rolantes e, ao mesmo tempo, lê. Buscar um ângulo novo. Um tipo exótico. Gente tatuada lendo Kant. Gente idosa lendo Mangá. Fotografar e postar. hamilton3 Buscar cenas inusitadas. Não apenas gente lendo. Mas gente simplesmente segurando a brochura debaixo do braço, entre as mãos, entre os dentes, espremida contra o peito. Um vício. Certa vez, tentei fotografar o 1889 de Laurentino Gomes, espremido entre os braços cruzados e os seios maiúsculos de uma usuária de meia idade. No geral, as pessoas não percebem que estão sendo fotografadas. Não percebem provavelmente porque o que me interessa não são propriamente as pessoas, mas a cena que protagonizam. Fotografo o gesto da leitura – nem a pessoa, nem o livro: mas o gesto da primeira empunhando o segundo. Busco ângulos que protejam naturalmente o rosto dos usuários-leitores. E ângulos que escancarem, o máximo possível, a capa do livro. São angulações difíceis de se obter. Quando não consigo esconder naturalmente o rosto dos leitores-usuários, faço uso de um aplicativo que me permite borrar os seus rostos. Voltando à tentativa de fotografar o 1889 entre os braços e os seios da usuária de meia idade, a coisa quase tomou um rumo inusitado e desconcertantemente perigoso. Perigoso para mim. Aconteceu mais ou menos assim: depois de duas tentativas de embarcar em uma determinada estação, fui empurrado pela massa para dentro do vagão. Lá dentro, pude experimentar nos próprios ossos o sentido da expressão “lata de sardinha”. Ainda assim, notei, muito próxima de mim, frente a frente, nossos rostos quase se tocando, a usuária de meia idade, que era alta, loira e muito bonita, tentando abrir e ler a sua brochura recheada de bom jornalismo histórico. Apontei o iPhone, mantendo-o bem próximo do meu rosto, como se eu estivesse fazendo uma selfie, o que seria muito comum naquela situação. Mas uma moça, atrás de mim, enxergou o conteúdo do que minha lente de apenas 4 megas estava prestes a capturar. Os seios da mulher, mais do que a capa da brochura, devido ao empurra-empurra, enchia a tela. Diante da cena, sei exatamente o que se passou na cabeça da moça, que gritou: – Pega! Assediante no vagão. O grito, muito próximo, quase estourou os meus tímpanos. Mais tarde, no hospital, eu descobriria que o que quase estourou os meus tímpanos não fora o grito agudo da moça, mas o sopapo de um sujeito proferido em minha orelha direita, em resposta ao grito dela. Mais cedo, na delegacia, eu já havia descoberto que a fulana era uma socióloga. Uma celebridade do Youtube. Militante de um certo neofeminista. Por isso, no momento do ocorrido, eu bem que notara certa familiaridade naquele “Pega!”. É o bordão que ela usa em seu videoblog. Sempre que relata um caso escabroso de violência contra a mulher, praticado por um homem, geralmente o marido ou o namorado, ela olha profunda e fixamente para a câmera de seu computador, respira fundo e, em um longo e agudo vibrato, esbraveja: “Pega!”. A socióloga blogueira, que também milita em favor das causas LGBT e contra a poda das árvores na cidade de São Paulo, deu um tapa no meu celular quando, tentando me desvencilhar da multidão que estava prestes a me linchar, eu o ergui como se fosse uma bandeira, tentando mostrar a página do meu projeto na internet, argumentando que se tratava de uma iniciativa cultural de incentivo à leitura. No momento do tapa, o trem parou em uma estação, o celular rolou pelo vão entre o trem e a plataforma e os seguranças do metrô… Na verdade, a foto do 1889 preso entre os braços e os seios grandes da usuária de meia idade foi tirada com sucesso. Mas enquanto eu a editava no Instagram, para postá-la na sequência, os últimos nove parágrafos acima passaram na minha cabeça como se as cenas que descrevem tivessem mesmo acabado de acontecer. Eram apenas pensamentos. Sai do vagão e, com o iPhone em punho, cliquei no ícone da maquininha fotográfica. Apontei a câmera para a própria brochura que eu segurava entre os dedos da mão direita, com o apoio de um desses assessórios de acrílico muito usados hoje em dia para segurar livros com uma só mão e, assim, permitir a leitura em pé. hamilton4 Minha brochura estava aberta em uma página na qual saltava aos olhos este verso de Eliot: One must be so careful these days. Todo o cuidado é pouco nos dias que correm. hamilton6 Por Hamilton dos Santos

TMGL revistas

Quando falamos em leitura, é natural ligar o tema à imagem uma pessoa com um livro nas mãos – seja ele físico ou digital. Nossas lentes, entretanto, flagraram algumas variações no metrô de SP e mostraram que também #temmaisgentelendo revistas. Embora em menor escala quando comparadas aos livros, elas são bastante cultivadas pelos usuários e estão à frente, inclusive, dos jornais tradicionais e tablóides.

Nosso ranking dos mais lidos de janeiro e fevereiro reflete isso: dois títulos – Superinteressante e Exame, ambos da Editora Abril – apareceram entre as 15 publicações mais recorrentes no metrô. Abaixo, você pode conferir alguns dos nossos cliques:

revistas (4)revistas (2)

revistas (6)

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Parceiros do Underground

Não é só pelos metrôs de São Paulo que #temmaisgentelendo. Em Nova York, a versão americana do TMGL, o Underground New York Public Library (UNYPL), também registra os leitores que passam pelo transporte público da cidade. A iniciativa, desenvolvida por Ourit Ben-Haim, ganhou vida em 2008 e, desde então, já conquistou mais de 56 mil curtidas em sua página do Facebook.

Em seu site, Ourit explica que, quando as lentes de sua Canon captam os usuários do metrô nova-iorquino com um livro nas mãos, este é apenas o primeiro passo do trabalho. Em seguida, começa o esforço para tentar descobrir o título e o autor da publicação, informações para deixar as postagens ainda mais completas. “Às vezes, consigo o nome do livro perguntando diretamente para as pessoas o que elas estão lendo. Depois, gravo os nomes nas notas do meu iPhone”, explica. Conheça mais sobre a iniciativa: http://undergroundnewyorkpubliclibrary.com/

O seu direito de imagem

O TMGL reconhece e respeita o direito de imagem dos leitores, mesmo em espaços públicos, onde o projeto atua. Por isso, temos uma política para publicação de fotos, em que:
– Procuramos ângulos mais distantes, que evitem o reconhecimento da pessoa fotografada;
– Borramos o rosto das pessoas que aparecem em primeiro plano nas imagens;
– No caso de as opções anteriores não serem viáveis, pediremos autorização para o leitor fotografado.

Queremos a sua autorização

Se a sua imagem lendo um livro (ou outras publicações) aparecer em nossas páginas e você não estiver de acordo com a postagem, envie um e-mail para contato@temmaisgentelendo.com que ela será imediatamente apagada. Mas se você se reconhecer em um post e concordar que ele seja mantido no ar, mande a sua autorização para este mesmo e-mail e concorra a um livro!