Spoiler: o jornalista Thales Guaracy conta o final de seu próprio livro, “A Conquista do Brasil”

Thales Guaracy é romancista, jornalista e editor brasileiro. Tem passagens por Gazeta Mercantil, O Estado de S.Paulo, Playboy, Veja e Exame. Em março de 2015 lançou o livro A Conquista do Brasil, pela editora Planeta, do qual, agora, nos entrega o final.

O final deste livro você já conhece: os mensaleiros, o petrolão, a presidente Dilma Rousseff, desacreditada, com um governo gastalhão, corrompido e sem saída para a economia. A reincidência alarmante e inacreditável das elites empresariais e da classe política no fisiologismo, que parece imune a todas as tentativas para a sua erradicação, faz a gente pensar no que há de errado com o Brasil, com a Nação, ou, melhor, com o brasileiro. Por isso, o mais interessante da história não é o fim, é entender o começo, para entendermos melhor quem somos nós. E mudar. Para melhor.

Por isso, resolvi escrever A Conquista do Brasil. No livro, resultado de longa pesquisa nos relatos dos primeiros viajantes, documentos históricos raros e na correspondência de reis, governadores e, sobretudo, dos jesuítas, resulta mais do que um “redescobrimento” do país. Encontra-se realmente o DNA do Brasil, que está ainda dentro de nós. Não é um romance mas tem tanta aventura quanto. E pode ser lido quase como uma obra de ficção. Você talvez não se surpreenda tanto em saber que, em 1560, o então governador da colônia, Mem de Sá, já enviava uma carta a “Sua Alteza”, o rei Dom Sebastião I, reclamando que Portugal “povoara esta terra de malfeitores que mais mereciam a pena de morte”. E pedia, se El-Rei quisesse ver algum futuro por aqui, “capitães honrados”, isto é, homens de bem.

O mesmo Mem de Sá, porém, driblava a proibição real de doar terras a si mesmo, distribuindo sesmarias a laranjas, que na sequência repassavam-nas de volta à família do governador. Soa conhecido? O Brasil não foi ocupado tranquilamente, como nos acostumamos a pensar com a história aprendida nos bancos escolares, ou com os lemas nacionais do brasileiro cordial, do país do samba, carnaval e futebol. Caçadores de escravos e a Coroa Portuguesa, instigada pelos jesuítas, que representavam no Brasil a Inquisição, massacraram no país os “hereges” canibais e os franceses protestantes que ocupavam a costa sudeste.

Portugal se impôs como um império sanguinário. E as terras tomadas ao povo nativo e seus aliados foi distribuída, sobretudo para os jesupitas, que cobravam pelo aluguel de suas sesmarias e tinham participação nos lucros com o açúcar e a importação de escravos negros. A Conquista do Brasil tem personagens aventurescos, bizarros, mirabolantes. Nossa história é resultado não apenas da era dos descobrimentos, que é contada desta vez de uma forma mais realista, sob um ponto de vista contemporâneo, como é produto de homens dutos, muitas vezes cruéis, que dominaram um território de vasta extensão, enquanto a América Espanhola viria a se fragmentar. Gente como João Ramalho, que tirava os pelos do corpo para se fundir aos índios e criou um exército de ávidos caçadores de escravos. Manoel da Nóbrega, o padre gago que veio catequizar os índios, e depois de descobrir que isso era impossível patrocinou seu genocídio, incluindo velhos, mulheres e crianças. Ou do também jesuíta José de Anchieta, santificado pelo Papa no ano passado, e escreveu em suas cartas que o problema do índio no Brasil se daria com a “espada ou a vara de ferro”.

Assim nasceu a política brasileira, nossa elite e seu modus operandi. Nossos problemas são de raiz; para mudá-los, quase seis séculos ainda são pouco. Para quem espera uma mudança, que seja também de raiz, pela via da educação; temos de entender que isso está dentro de todos, é a verdadeira cara da Nação brasileira, e não adianta apenas reclamar.

Spoiler: Miguel Sanches, autor de “A Segunda Pátria”, entrega o final do clássico “A Montanha Mágica”

Miguel Sanches Neto é professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Ponta Grossa, colunista da Gazeta do Povo (Curitiba), colaborador regular da revista Carta Capital (São Paulo) e autor de diversos livros, sendo A Segunda Pátria, publicado pela editora Intrínseca, o mais recente. Em uma obra magma da literatura ocidental, A Montanha Mágica (1924), Thomas Mann constrói um modelo reduzido da Europa às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Esta ficção enciclopédica, em que prepondera a defesa intransigente das grandes ideias do período, encarnadas em personagens que não arredam pé de suas posições, tem como fio condutor a história do engenheiro naval alemão Hans Castorp. Ele visita o primo Joachim Ziemssen em um sanatório para tuberculosos em Davos, nos Alpes Suíços. Profissional da cidade dos homens, pertencendo ao mundo prático dos que constroem coisas, Hans resolve ficar um período a mais naquele universo (onde o tempo e a ação foram suspensos) com o intuito de aproveitar o clima e a convivência com figuras marcantes. Ali, fora da rotina de trabalho, ele começa um aprendizado, oscilando permanentemente entre ideologias antípodas. Ironicamente, Hans descobre que está também adoecido e prolonga por sete anos a sua permanência no sanatório, sem optar jamais por uma das correntes filosóficas defendidas por seus companheiros. O romance é a metáfora de um adoecimento geral da sociedade, que resultaria na Grande Guerra, como se dizia então. No final, o narrador impiedoso (que nos carrega ao longo de quase mil páginas) mostra abruptamente Hans Castorp como mais um soldado, ingenuamente conduzido ao campo de batalha, despedindo-se dele: “Adeus – para a vida e para a morte! Tens poucas probabilidades a teu favor”. Neste baile macabro a que foi arrastado, Hans terá que dançar com a morte alheia e, talvez, com a própria. Continua tão singelo quanto no momento de ingresso no sanatório, sugerindo assim que, em um mundo onde cada um defende a sua verdade, não há espaço para uma formação humanista. Resta a Hans e seus iguais apenas a participação passiva no que Thomas Mann chama de “a festa universal da morte”.

Edward Pimenta conta o segredo do livro “A Noite da Arma”, de David Carr

Por Edward Pimenta, jornalista, escritor e autor de O Homem que Não Gostava de Beijos (Editora Record, 2006).

O jornalista americano David Carr, morto no dia 16 de fevereiro, escreveu sobre mídia, jornalismo, televisão, cultura pop, sempre irônico e classudo no The New York Times.

Intimidador no vídeo, gente fina pessoalmente. Conheci-o quando veio a São Paulo, em 2014, e, na ocasião, ele autografou o meu exemplar do seu livro A Noite da Arma (Record) – assista-o em ação entrevistando os fundadores do VICE no documentário Page One.

Durante anos, bebeu quantidades monumentais de álcool e gostava de cocaína. Tornou-se um viciado em crack, injetava coca na jugular, traficou para sustentar o vício, foi preso, perdeu empregos, amigos, casamentos e a guarda das duas filhas gêmeas. Depois de vários rehabs, deu a volta por cima. Carr escreveu a história – aparentemente o clichê perfeito da superação – e a publicou em livro nos Estados Unidos, em 2008. Em português, ficou A Noite da Arma, bem traduzido por José Gradel. Um relato pungente, de tirar o fôlego, para usar dois clichês de uma só vez.

A narrativa dos seus piores dias tem jeitão de prosa memorialística. Carr prefere chamar de reportagem. De fato, revirou o passado em busca de documentos que pudessem reconstruir a sua história e falou com as pessoas que, vinte anos antes, tinham feito parte do seu inferno pessoal: amigos, namoradas, traficantes, fornecedores, cafetões, agentes de saúde e internos.

Quase todas as sessenta entrevistas, vídeos, áudios, fotos e fac-símiles você pode ver neste site bacaníssimo: http://www.nightofthegun.com, lançado com a edição americana. São duas, a meu ver, as virtudes de A Noite da Arma. A primeira, claro, é que Carr se esforça para não ficar “bem na fita”. Se você experimentou escrever algumas linhas sobre si mesmo, já deve ter notado como acionamos involuntariamente censores internos que regulam aquilo que deve ou não ser escrito. Na tentativa quase sempre bem-sucedida de fugir da autocomiseração, Carr descreve como ele, um viciado gordo e decadente, batia na mulher durante as brigas alimentadas pelas drogas.

O autor busca explicar o funcionamento da memória quando se pretende escrever uma autobiografia em forma de reportagem. “A memória episódica e a semântica estão em níveis diversos, mas cada qual é eventualmente utilizada com a função de completar uma narrativa. Narrativas são as explicações de nós mesmos que damos aos outros com a dura verdade impiedosa sempre presente nas entrelinhas do que se conta”. Ele diz ter se baseado em algumas suposições:

1) As narrativas de qualquer pessoa têm valor, inclusive a minha.

2) Minha vida é a única coisa do mundo na qual eu sou o maior especialista.

3) Se eu for verídico, nenhum dano real pode abater-se sobre mim.

4) Guardar cuidadosamente os vídeos e áudios das pessoas entrevistadas há de conferir à biografia uma verossimilhança nascida da transparência.

5) Eu sou um homem bom que fez coisas ruins, mas agora sou melhor.

A segunda grande virtude do livro é a clareza que o autor tem sobre os mecanismos do vício. Acho que você também sabe disso, mas não é capaz de dizê-lo com tanta graça:

“Respeite o poder das substâncias químicas que alteram o ânimo, mas permita que haja esperança. Quando o pirata interno em seu subcórtex está pedindo permissão para subir a bordo, considere que, se você conseguir atravessar aquele dia, poderá haver muitos outros. Confie em Deus, não no pirata. Desenvolva novas obsessões. Literatura do século 19. Bonsai. Pingue-pongue. Tortas sem farinha. Saltos radicais. Evite escrever ou ler biografias de viciados. A linha divisória entre lascívia e erro humilhante é fina como uma navalha. Nada a fazer aqui, nada além de gatilhos, continue andando.”

O grande mistério é o episódio que envolve a arma do título do livro. Inicialmente não fica claro se, em uma fatídica noite de excessos e loucura da pesada, ele realmente ameaçou o melhor amigo com um revólver.

Por fim, entre revelações de detalhes humilhantes para um homem com a sua vaidade intelectual, o autor chega à conclusão de que a arma era mesmo dele e que esteve apontada para a cabeça do companheiro. Este não é, óbvio, o meu final preferido na literatura, mas esta passagem determinou o ponto de transformação na vida de um cara que foi ao fundo do poço e se reergueu até se tornar um dos mais interessantes jornalistas de seu tempo, antes de desaparecer prematuramente, aos 58 anos.

Spoiler: Edson Aran revela seu final favorito na literatura – “1Q84”, de Haruki Marakami

Toda a trama complexa e intrincada dos livros anteriores é resolvida de maneira apressada, como se Haruki Murakami precisasse sair correndo (o cara é maratonista). Bem, vamos lá. Metade dos personagens desaparece: o grandalhão Tamaru, a escritora adolescente Fukaeri, a velha senhora que emprega a protagonista como assassina e até o misterioso Povo Pequenino. Sobram só Aomame e Tengo, os dois “namoradinhos” de infância, que nunca mais se encontraram. Ah, e os membros da seita Sakigake, que querem pegar Aomame porque ela matou o líder deles no segundo volume.

A sorte é que Tóquio é uma cidade pequenininha e, por isso, Aomame e Tengo, depois de inúmeros desencontros, estão no mesmo bairro. Toda noite, Tengo vai a um parquinho e observa as luas (tem duas). Da janela do seu apartamento, Aomame vê aquele vulto e sabe que é Tengo! Conseguirão os dois se encontrar antes que os assassinos os transformem em sashimi? Sim, eles conseguem. E também vão subir a mesma escada que a moça desceu no primeiro capítulo e, desta forma, voltar ao mundo “real”.

Antes disso, porém, Aomame fica grávida de Tengo. Não! Eles não transam! Ela pensa nele e engravida! Isso é um livro de japonês, saco! Eles têm problema com essa coisa de sexualidade. Obrigado.

Spoiler: “A paisagem mais espetacular que vi foi a do final de Em Busca do Tempo Perdido”

Por Ricardo Lordes, publicitário, presidente da agência Pátria e autor do livro Olhar Feminino (Editora Matrix, 2012)

Li certa vez uma bela definição para “fim de livro”: é quando o autor mostra a você a paisagem vista do alto da montanha que ele o ajudou a escalar. De todas as montanhas de papel que já escalei, a paisagem mais espetacular que vi foi a do final de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.

Escrito em primeira pessoa, o livro nos coloca na Paris do início do século XX e na vida de um homem doente e solitário, completamente obcecado pela ideia de escrever um romance. Ao mesmo tempo, ele tem seríssimas dúvidas sobre seu dom literário.

Ao longo de quarto mil páginas, acompanhamos as infinitas recordações, observações e aflições de um homem que não deu para nada – e não sabe se dará para escritor, seu desejo e sonho. É uma longa prosa que soa como uma interminável poesia e, até por isso, mereceu a tradução de Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, na edição brasileira da Editora Globo.

O fim do livro é justamente o instante em que o autor se convence de que pode, sim, escrever um grande livro – o que estamos terminando de ler e que já podemos avaliar o quão grande seria/é. Então, o narrador deseja, clama para que ao menos tenha tempo para concluir sua obra – obra que falaria justamente sobre o Tempo.

Proust concluiu o livro em 1922. E morreu no mesmo ano. O manuscrito do primeiro volume foi violentamente rejeitado pela editora Gallimard, e o autor se viu obrigado a pagar a impressão pela Grasset e apostar sozinho no sucesso da obra.

Não foi tempo perdido.

Spoiler: Muarrek entrega o final do romance “Pais e Filhos”, de Turguêniev

Por Ubiratan Muarrek, jornalista, escritor e autor de Corrida do Membro (Editora Objetiva, 2007). Prepara para este ano o lançamento de seu segundo romance pela Rocco.

“– Meu filho, meu querido, filho adorado! Esse apelo incomum produziu efeito em Bazárov… ele virou um pouco a cabeça e, tentando de modo flagrante livrar-se do peso do torpor que o sufocava, falou:

– O que é, meu pai?”

Pais e Filhos, pág. 288

Adiantar o final de Pais e Filhos, obra-prima do escritor tusso Turguêniev, não se resume a dizer que Bazárov, o herói do livro, morre no final. Bazárov, o encantador niilista que o mundo conheceu pelo talento de Turguêniev, de fato morre no penúltimo capítulo do livro. Estudante de medicina em São Petersburgo, ele volta para a casa dos pais, na zona rural e, ao fazer a necropsia de um camponês morto de tifo, corta-se com o bisturi, contamina-se e, diante da “perplexidade indescritível” do pai, Vassíli Ivanovitch, morre três dias depois.

Mas é a descrição dessa “perplexidade indescritível” que torna Pais e Filhos um clássico de primeira grandeza da literatura universal.

O leitor não deve se deixar enganar: por um lado, é verdadeiro que Turguêniev captou como ninguém o momento político da Rússia de 1862, quando Pais e Filhos foi escrito – a libertação dos servos, pelo czar, estava no âmago das transformações de uma economia então agrária e feudal. Bazárov, com suas ideias, saiu das páginas de Turguêniev e ganhou as ruas: seu niilismo – não acreditava em autoridades, misticismos e em “nada que não se pudesse provar” – foi acusado de inspirar jovens de São Petersburgo a tocar fogo na cidade, semeando o terror.

Por outro lado, é na capacidade de narrar com tanta sutileza e força o desespero dos velhinhos camponeses “decrépitos”, nos últimos dias do filho querido, que prometera tanto na vida e, no retorno, teria uma morte tão irônica e banal, que Pais e Filhos se revela em toda sua força: na Rússia que aparece inteira na cena final, no último parágrafo do livro, em que, diante do túmulo de Bazárov, pais e filho se reencontram, em “reconciliação eterna”, diante da “vida infinita”.